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Esse é o primeiro artigo do Nanda Hobbies: um blog que eu criei para falar sobre passatempos com calma, com cuidado e sem a correria que a gente já acostumou.

Antes de começar, deixa eu te contar uma coisa! Aqui não vou falar de produtividade, não vou vou te ensinar a transformar uma paixão em renda, e nem te convencer de que você precisa postar nas redes sociais o que você faz nas suas horas livres.

O Nanda Hobbies vai ser um espaço para a gente pensar, sentir e dedicar o nosso tempo a algo que a gente gosta. Porque esse tempo, que parece tão pequeno no meio dos nossos dias cheios, pode ser um dos maiores presentes que a gente pode se dar.

E pra começar bem do início, a gente precisa conhecer a história e entender o significado das coisas.

A origem da palavra “hobby”

Eu gosto de começar entendendo de onde vêm as palavras, porque elas podem guardar histórias que a gente nem imagina. E a palavra “hobby” é um exemplo perfeito disso.

Ela vem do inglês antigo, do século XIV, e tem uma origem bem curiosa. A palavra “hobyn” significava pônei, aqueles cavalinhos pequenos e ágeis. Com o tempo, ela virou “hobby horse”, que era um cavalinho de pau, um brinquedo de madeira que as crianças usavam para brincar de cavalgar, correndo de um lado para o outro de maneira alegre e sem destino.

Oxford English Dictionary, verbete “hobby”: a palavra evoluiu de “hobyn” (século XIV, pônei pequeno) para “hobby-horse” (século XVI, cavalinho de pau) e só a partir do século XVII passou a designar uma atividade feita por prazer no tempo livre.
Fonte: etymonline.com/word/hobby

Mas o que tem a ver um cavalinho de pau com passatempo? Bem, existe uma teoria, que o historiador Robert Macfarlane cita em seus estudos sobre lazer, de que a expressão passou a significar “andar em círculos, voltar sempre ao mesmo ponto por prazer, sem chegar a lugar nenhum.” Como quem monta um cavalinho de pau e nunca sai do lugar, mas se diverte muito mesmo assim.

Foi só a partir do século XVII que o termo começou a ser usado para descrever uma atividade feita por prazer, sem uma finalidade prática e sem a necessidade de ter algum resultado. Era como se a pessoa dissesse: “eu estou aqui no meu cavalinho de pau, me divertindo no meu tempo, e não preciso vencer nenhuma corrida.”

“O ócio só é possível quando o homem está em harmonia consigo mesmo, quando ele não está ‘em guerra’ com o mundo, mas sim em celebração.”Josef Pieper, Ócio e Contemplação, 1948

Leitura recomendada:

“Ócio e Contemplação” (Leisure: The Basis of Culture) é uma das obras mais profundas de Josef Pieper. Nela, o filósofo alemão argumenta que o ócio não é “só não fazer nada” ou um estado de preguiça, mas sim uma condição da alma que permite a percepção da realidade e o culto ao divino. O verdadeiro lazer é uma atitude da alma, não apenas ausência de trabalho.

Você já parou pra pensar por que chamamos essas horas de lazer de “passatempo”? Como se o tempo fosse uma coisa pesada que a gente precisasse fazer algo pra ele passar sem que a gente percebesse. Mas será que essa é a melhor forma de enxergar as nossas horas livres?

Antes da Revolução Industrial

Se a gente olhar para trás na história, vai perceber que o conceito de hobby como conhecemos hoje ganhou força especialmente depois da Revolução Industrial, lá no final do século XVIII e ao longo do XIX. Mas antes de chegar lá,  a gente precisa entender como era a vida antes disso.

Durante séculos, a vida da maioria das pessoas era quase toda dedicada ao trabalho manual, à sobrevivência e à produção do que era necessário para comer, vestir e se proteger. O tempo livre era raro. E quando existia, ele era usado para descansar o corpo, participar de comemorações da comunidade ou dedicar tempo à vida espiritual.

Isso não significa que as pessoas eram infelizes ou que não tinham prazer no que faziam. Na verdade, havia uma integração entre trabalho, arte e contemplação que a gente quase não encontra mais hoje em dia. Uma mulher que tecia não estava apenas produzindo um tecido, ela estava seguindo um ritmo e uma tradição, algo que sua mãe e sua avó também faziam. 

Com as máquinas a vapor, as fábricas e a produção em massa, o dia a dia de muita gente virou uma sequência repetitiva de tarefas. Mais ou menos o que a gente faz hoje. Aquilo que antes envolvia acompanhar um processo inteiro de produção foi sendo dividido em pequenas etapas, onde cada pessoa executava apenas uma parte do produto e, quase sempre, não via o resultado final tomando forma.

Foi aí que surgiu a necessidade de fazer algo diferente depois do expediente. Algo que não fosse só mais uma obrigação, mas sim uma forma de ocupar o tempo de um jeito que trouxesse satisfação. Os hobbies então começaram a se espalhar como uma espécie de resposta humana e natural àquela vida que estava começando a ficar mecanizada e acelerada.

O hobby na vida das mulheres

No caso das mulheres, essa história tem algumas camadas ainda mais interessantes.

Durante séculos, as atividades como bordado, tricô, costura e tecelagem faziam parte da rotina doméstica, e nem sempre eram vistas como um hobby. Para muitas mulheres, era trabalho puro: produzir roupas para a família, consertar o que estava desgastado, preparar enxovais para as filhas.

No entanto, quando a mulher pertencia a classes mais abastadas, ou quando havia ajuda em casa para as tarefas mais pesadas, essas mesmas atividades ganhavam outro tom. O bordado elaborado, por exemplo, virava uma demonstração de habilidade, paciência e refinamento. Uma forma de ocupar o tempo que também revelava caráter. Afinal, quem tinha disposição para trabalhar com tanto cuidado em algo que levaria semanas para ficar pronto estava mostrando uma virtude que vai além do produto final.

No século XIX, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, muitas mulheres da burguesia encontravam nesses trabalhos manuais uma espécie de santuário interior. Enquanto o mundo lá fora se industrializava e acelerava, elas criavam peças com agulha e linha que podiam levar semanas, meses e até anos para ficarem prontas.

E não era só dentro de casa que isso acontecia. Nos conventos europeus, e também nos brasileiros, as freiras cultivavam com grande cuidado bordados, rendas, iluminuras e até músicas. O Mosteiro de Solesmes, na França, ficou famoso pela recuperação do canto gregoriano no século XIX. Aqui no Brasil, o Mosteiro de São Bento e as Irmãs Clarissas são exemplos de como a vida contemplativa sempre soube honrar o trabalho das mãos como extensão da oração.

Sobre as Clarissas e sua tradição de doces e rendas em Pernambuco: Luís da Câmara Cascudo menciona isso em História da Alimentação no Brasil (1967). As Clarissas de Recife são conhecidas até hoje pela produção de doces conventuais, uma tradição transmitida por séculos de geração em geração de irmãs.

Eu conto isso porque acho importante entender que muitos dos hobbies que a gente vai falar aqui no blog não são coisas novas. São práticas que as mulheres carregam há séculos e que foram transmitidas de mãe para filha, de professora para aluna, de avó para neta. Quando você pega uma agulha de crochê hoje, está repetindo um gesto que outras mulheres fizeram por gerações. E isso tem uma dignidade e uma beleza que a gente às vezes esquece de reconhecer.

A transformação na era moderna

Chegando mais perto dos nossos dias, o que a gente chama de hobby ganhou outras formas. Depois da Segunda Guerra Mundial, com o aumento do tempo livre e a popularização de coisas como fotografia, coleções, jardinagem e leitura recreativa, o hobby se consolidou como parte reconhecida da vida moderna.

Mas ao mesmo tempo, algo foi mudando. A sociedade passou a valorizar cada vez mais a produtividade, o resultado e o conteúdo rápido. E aí o hobby, que nasceu justamente como algo que não precisava “servir para nada”, foi sendo moldado até parecer que precisava ter alguma utilidade.

Leitura recomendada:

“Sociedade do Cansaço”
, de Byung-Chul Han, é um livro de filosofia contemporânea sobre como a cultura do desempenho e da produtividade esgota o ser humano e elimina o espaço da contemplação. Leitura recomendada para contextualizar por que manter um hobby “inútil” hoje em dia é um ato de “resistência interior”.

“Aceleração Social”, de Hartmut Rosa, fala sobre como o ritmo da vida moderna comprime o tempo e elimina as pausas.

Hoje em dia, muita gente começa a fazer crochê e, em poucos meses, já está pensando em abrir uma loja online. Ou alguém que gosta de ler já sente a necessidade de “dar a sua opinião” sobre todos os livros nas redes sociais. Ou mulheres que resolvem fazer bullet journal e entram numa busca incessante por layouts perfeitos para postar.


Quando isso acontece, o que era para ser só um passatempo vira mais uma tarefa na lista de afazeres do dia. Mais uma coisa que exige esforço, planejamento e cobrança. E aí a gente perde exatamente a essência de se ter um hobby.

Eu não digo isso para criticar quem transformou uma paixão em trabalho, às vezes isso acontece de forma natural e até necessária. O que estou dizendo é que existe uma diferença muito grande entre escolher tem um hobby e sentir que é obrigada a manter esse hobby por algum motivo.

O que é um hobby de verdade?

Então, depois de todo esse percurso histórico, eu te pergunto: afinal, o que é um hobby de verdade?

Na minha visão, um hobby de verdade mantém aquela mesma essência do cavalinho de pau lá do início. É uma atividade que você escolhe fazer porque, no momento em que está praticando, ela te absorve de um jeito leve e você se distancia dos problemas da modernidade. Alguns psicólogos chamam isso de “flow”.

“Flow: A Psicologia do Alto Desempenho e da Felicidade”, de Mihaly Csikszentmihalyi. O autor descreve o “estado de fluxo” como aquele em que uma pessoa está tão absorvida em uma atividade que perde a noção do tempo, do ego e das preocupações. Ele aponta que atividades manuais, música, jardinagem e culinária são fontes frequentes de fluxo. 

Um hobby não precisa gerar dinheiro. Não precisa virar conteúdo bonito. Não precisa te tornar uma especialista ou te deixar mais produtiva. Você não começa um hobby porque ele vai te trazer benefícios, você começa porque você simplesmente quer fazer.

Mas, um hobby pode sim te trazer benefícios, e muitos. Mulheres que dedicam tempo a atividades que amam costumam se sentir mais calmas, mais criativas, dormem melhor, têm mais paciência com as pessoas ao redor. Mas esses benefícios vêm como consequência, não como objetivo. É a diferença entre colher flores porque elas são bonitas e colher flores para fazer um buquê para postar.

“Ora et Labora — ora e trabalha.” — Regra de São Bento, século VI.
A integração entre oração e trabalho manual como caminho de santificação.

Imagina uma mulher do século XIX bordando um lenço com flores delicadas. Ela provavelmente não estava pensando em vender aquele lenço. Ela estava simplesmente seguindo o desenho com a linha, sentindo o tecido na mão, deixando o tempo passar de um jeito diferente do ritmo da casa. Talvez rezando enquanto bordava. Talvez pensando em como resolver algum problema. Talvez ela estava somente querendo bordar.

Hoje, quando alguém pega uma agulha e uma lã para fazer uma camisa sem prazo para terminar, ou senta para ler um livro sem querer anotar nada, ou cuida das plantas no quintal sem a intenção de transformar isso em um negócio, essa pessoa está repetindo o mesmo gesto daquela mulher do passado. Está honrando uma tradição de cuidado com o tempo, com as mãos e com a alma.

O que diferencia um hobby de verdade de outras atividades da nossa rotina é exatamente essa ausência de obrigação. Não é um trabalho. Não é um estudo. Não é autocuidado programado. Não é conteúdo para as redes sociais. É algo que você faz somente porque quer fazer.

Pode ser simples ou complexo. Pode durar dez minutos ou dez dias. Pode ser solitário ou compartilhado. Mas enquanto você está dentro do seu hobby, você não fica calculando quanto tempo está “perdendo” ou o que vai ganhar com ele. Você simplesmente está lá “seguindo o fluxo”.

Por que é difícil manter um hobby hoje?

Mas é claro que na vida real as coisas nunca são tão simples e bonitas assim, né?

Às vezes a gente começa um hobby com toda a boa vontade e, com o tempo, ele vai ganhando um peso de cobrança. A gente vê tanta gente transformando uma paixão em trabalho paralelo que fica difícil imaginar que um hobby de verdade possa continuar existindo só pelo prazer. Como se houvesse uma voz que diz: “tá legal fazer crochê, mas se você não estiver vendendo, para que serve?”.

E existe também a armadilha da perfeição. Você começa a bordar, abre o Instagram, vê trabalhos incríveis de mulheres que fazem aquilo há anos, e de repente o seu pequeno ponto torto começa a parecer uma falha enorme. E aí o que era para ser uma hora de paz vira uma fonte de ansiedade.

 
Tem ainda a questão do tempo. Especialmente para quem tem filhos, casa, trabalho. Encontrar uma hora só para si parece um luxo. E às vezes é mesmo. Mas é um luxo que a gente precisa defender com carinho, porque sem essas pequenas pausas durante o dia a gente vai acabar se perdendo pelo caminho.

Leitura recomendada:

“O Ócio Criativo”, de Domenico De Masi. O livro traz reflexões interessantes sobre como a cultura ocidental perdeu o valor do tempo contemplativo.

“Ninguém É Uma Ilha”, Thomas Merton. O monge reflete sobre o ritmo natural da vida, o silêncio e o trabalho das mãos como formas de oração.

É exatamente por isso que vale a pena refletir sobre o que significa manter um hobby de verdade hoje em dia. Não como uma utopia impossível, mas como uma escolha pequena e diária. Escolher, pelo menos uma vez por semana, fazer algo só porque você gosta. Sem gravar, sem postar, sem calcular o tempo.

E se você for uma mulher que cuida da casa, dos filhos, do marido, eu quero te dizer uma coisa com toda a clareza: cuidar de si mesma através de algo que você ama não é egoísmo. É saber que uma mulher plena, descansada e que tem alegrias próprias cuida muito melhor das pessoas que ama.

Para o futuro

Nos próximos artigos eu quero explorar o mundo dos hobbies com mais calma e fala como essas atividades podem ser um espaço de paz, de criatividade e de cuidado, sem deixar que elas virem mais uma demanda do dia. 

Se você chegou até aqui, muito obrigada. De verdade. Você me deu o seu tempo e eu sei o quanto isso vale.
 
Agora me conta nos comentários: qual foi a última coisa que você fez só porque gostava? Ou qual passatempo antigo você sente vontade de retomar sem transformar em obrigação?
 
Eu sou a Nanda e obrigada por passar o seu tempo comigo!

Assunto:

Hobby de Verdade,