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Hoje eu queria continuar olhando para o passado e ir entendendo como os hobbies que muitas mulheres praticam hoje têm raízes bem antigas e, às vezes, com significados bem diferentes do que a gente imagina quando pega uma agulha ou abre um caderno para escrever.

As mulheres sempre tiveram hobbies, sempre criaram beleza e sempre cultivaram habilidades com as mãos e com a mente. Mas esse é um conhecimento que a gente raramente aprende na escola.

A história das habilidades femininas ficou guardada nas margens dos livros de história. Registrada em tapeçarias, em receituários de família, em cadernos de música amarelados ou em cartas que passaram de mão em mão por séculos.

Hoje eu quero trazer um pouco desse tesouro para a nossa conversa.

Porque entender de onde vêm essas tradições não é só uma curiosidade histórica. É entender quem somos como mulheres e perceber que quando você senta para praticar o seu hobby, você está fazendo parte de uma longa corrente, muito mais longa do que você imagina.

Antiguidade: Quando Tecer Era Virtude e Poder

Vamos começar bem no comecinho mesmo, na Antiguidade. Se você perguntar a qualquer pessoa qual foi a habilidade feminina mais celebrada da história, há uma boa chance de a resposta ser: tecer. E com razão.

Grécia Antiga: Penélope e a Sabedoria do Tear

Você provavelmente conhece Penélope da mitologia grega. Ela foi a esposa de Ulisses, o herói que partiu para a Guerra de Troia e demorou vinte anos para voltar. Durante toda essa espera, Penélope ficou em casa, guardando o reino, educando o filho, mantendo a casa e tecendo.

Enquanto todos achavam que Ulisses tinha morrido na guerra, ela prometeu aos novos pretendentes que se casaria com um deles depois de terminar a mortalha que estava tecendo para o sogro, pai de Ulisses. Mas toda noite, ela desfazia o que havia tecido durante o dia. Por três anos, ela fez isso, em silêncio e com uma paciência extraordinária.

“Penélope e os pretendentes” por John William Waterhouse, 1912. Fonte: Wikipédia

Penélope não é celebrada como fraca ou passiva. Na tradição grega, ela é a imagem da sophrosyne: a virtude da prudência, da moderação e do autodomínio. Ela é tão heroína quanto Ulisses, mas com armas diferentes: a paciência, a inteligência silenciosa, a fidelidade e o domínio do tear.

“Entre as mulheres, nenhuma se igualará a Penélope em sabedoria.”
Homero, “Odisseia”.

O tear, na Grécia Antiga, não era apenas uma ferramenta doméstica, ele era um símbolo de ordem e de civilização. A deusa Atena, deusa da sabedoria e da guerra, era também a patrona do artesanato têxtil. 

Roma Antiga: A Matrona que Fia

Em Roma, o modelo ideal de mulher era a matrona e um dos seus atributos mais admirados era saber fiar e tecer. Existe uma famosa inscrição funerária romana, do século II a.C., sobre uma mulher chamada Claudia. Ela diz:

“Amou o marido de coração. Gerou dois filhos. Sua conversa era agradável, seu andar gracioso. Cuidou da casa. Fiou a lã.”
Inscrição funerária romana (CIL I 1007, séc. II a.C.)

Esses atributos eram muito mais do que atividades práticas, eram a expressão de caráter de uma mulher, eram parte do retrato de uma mulher completa da época.

O imperador Augusto, segundo o historiador Suetônio, usava apenas vestes feitas em casa, tecidas pela esposa Lívia e pelas filhas. Era um símbolo de virtude doméstica que ele queria associar à sua família.

O Livro dos Provérbios: A Mulher Virtuosa

E aqui não posso deixar de trazer um texto que qualquer leitora católica ou cristã vai reconhecer. O famoso poema da Mulher Virtuosa, no Livro dos Provérbios (capítulo 31). Esse poema, escrito há mais de dois mil e quinhentos anos, descreve a mulher virtuosa. E o que ela faz?

“Ela busca lã e linho e trabalha de bom grado com as mãos. (…) Examina uma propriedade e adquire-a; planta uma vinha com o fruto de suas mãos. (…) Estende as suas mãos ao fuso, e suas mãos pegam na roca. (…) Faz para si cobertas de tapeçaria; seu vestido é de seda e de púrpura. (…) Faz panos de linho fino e vende-os, e entrega cintos aos mercadores.” — Provérbios 31, 13–24

O trabalho manual, a criatividade, a organização doméstica, o cuidado com a beleza da casa e da família, tudo isso está na descrição bíblica de uma mulher virtuosa. Não como submissão involuntária, mas como a expressão plena de uma natureza criadora e ordenadora.

Idade Média: Os Conventos e As Tapeçarias

Agora a gente vai avançar para a Idade Média e aqui vamos encontrar dois mundos muito distintos, mas igualmente ricos, para os hobbies femininos.

Os Conventos: Onde o Belo Servia ao Sagrado

Se a gente quiser entender o nível mais elevado que as habilidades femininas já atingiram na história do Ocidente, a gente tem que olhar para os conventos medievais.

As freiras não apenas rezavam. Elas desenhavam manuscritos com pigmentos de cores vivas e folhas de ouro ou prata, tornando as páginas “iluminadas” e, por isso, esse tipo de técnica é chamado de iluminura. As freiras também teciam paramentos litúrgicos bordados com fios de seda e ouro, que são basicamente as roupas que os padres usam na hora de alguma celebração. Elas também produziam ervas medicinais e compostos de cura, além de escreverem músicas.

A Santa Hildegarda de Bingen, que também é doutora da Igreja Católica, é um dos exemplos mais extraordinários que a gente pode citar hoje. Ela nasceu em 1098 e foi abadessa, compositora, escritora, botânica e miniaturista. Suas composições musicais ainda são gravadas e ouvidas até hoje. Sua obra sobre medicina natural, “Physica”, e sobre curas, “Causae et Curae”, são fontes de pesquisa até hoje.

“Todas as coisas vivas são faíscas do fogo radiante de Deus.”
Hildegard von Bingen, Scivias”

Mas a Santa Hildegarda não estava sozinha. Em quase todos os grandes conventos europeus, havia o scriptorium, que era um espaço de cópia e produção de manuscritos, e um laboratório de ervas. As freiras eram, frequentemente, as pessoas mais instruídas de suas regiões.

O bordado conventual atingiu um nível de sofisticação que ainda não foi superado. O estilo chamado Opus Anglicanum (trabalho inglês), produzido principalmente em conventos ingleses entre os séculos XII e XIV, era tão refinados que reis e papas o cobiçavam. Paramentos bordados nesse estilo foram encontrados em tesouros do Vaticano e estão expostos em museus como o Victoria & Albert Museum, em Londres.

“O Opus Anglicanum era a mais valorizada forma de bordado na Europa medieval, exportado para toda a cristandade como presente diplomático e oferenda sagrada.” — Clare Browne, “Opus Anglicanum: England’s Medieval Masterpiece”
As Nobres e as Tapeçarias

Fora dos conventos, nas cortes e castelos medievais, as mulheres nobres também dedicavam horas ao bordado e à tecelagem, não por necessidade, mas como expressão de habilidade e status.

A mais famosa obra têxtil da Idade Média é a “Tapeçaria de Bayeux”, um bordado de 70 metros de comprimento que narra a conquista normanda da Inglaterra no ano de 1066. Nela são representadas cerca de 60 cenas feitas sobre linho, com lã tingida com vários pigmentos vegetais. Algumas pesquisas dizem que ela foi provavelmente bordada por mulheres, possivelmente em ateliês da Cantuária, na Inglaterra. Já outras pesquisas mostram que a “Tapeçaria de Bayeux” foi feita por monges da Abadia de Santo Agostinho

A Dama e o Unicórnio: À mon seul désir (Museu de Cluny, Paris). Fonte: Wikipédia

Há também as famosas tapeçarias de “A Dama e o Unicórnio”, produzidas nos Países Baixos por volta de 1500, provavelmente encomendadas por alguma família nobre. Seis painéis, cada um representando um dos sentidos: paladar, audição, visão, olfato, tato e “À mon seul désir” (“Ao meu único desejo”, numa tradução literal), este último pode ser interpretado como o amor ou a compreensão. Esse conjunto de tapeçarias são consideradas uma das mais belas obras de arte têxtil do mundo. Hoje elas estão no Museu de Cluny, em Paris

“As tapeçarias medievais não eram decoração, eram narrativa. As mulheres que as produziam eram, literalmente, tecelãs de histórias.” — adaptado de Penelope Walton Rogers, têxtil arqueóloga, Universidade de York
A Música nas Cortes Medievais

E não era só de bordado que a mulheres viviam. A música também era parte fundamental da formação feminina medieval.

As Trobairitz, as poetisas e músicas da Provença, no sul da França, entre os séculos XII e XIII, eram mulheres nobres que compunham e cantavam suas próprias canções de amor cortês. A Condessa de Dia é uma das mais conhecidas:

“Tenho sofrido grande angústia / pelo cavaleiro que amei / e quero que todos saibam / que eu o amei além da medida.” — A Condessa de Dia (Beatriz de Dia), A chantar m’er, séc. XII (trad. aproximada do occitano antigo)

Renascimento e Século XVII: A Elegância Como Virtude

Com o Renascimento, o ideal de uma mulher refinada e bem formada se ampliou. Já não bastava apenas tecer e bordar, embora essas habilidades continuassem centrais na formação feminina. Era esperado também que a mulher da corte dominasse a música, a dança, a poesia e cultivasse uma conversação agradável.

O Ideal da Donna di Palazzo

O humanista Baldassarre Castiglione, em seu “Livro do Cortesão”, descreve os talentos que uma dama da corte deveria cultivar:

“(…) saber dançar com graça, saber tocar um instrumento com destreza, saber cantar, saber bordar e costurar — tudo isso com tal naturalidade que pareça não ter sido aprendido, mas dom natural.” — Baldassarre Castiglione, “Il Libro del Cortegiano”

A ideia de sprezzatura, fazer o difícil parecer fácil e natural, é central no ideal renascentista. A mulher refinada não deveria parecer esforçada. A habilidade deveria ser tão incorporada à sua vida que virasse uma segunda natureza.

O Bordado como Linguagem: Maria da Escócia

Nenhuma história de hobbies femininos está completa sem mencionar Maria da Escócia, uma das bordadeiras mais famosas da história.

Durante seus dezoito anos de prisão na Inglaterra, por ordem de sua prima Isabel I, Maria Stuart bordou. Ela bordava painéis com fios de seda e escolheu cada detalhe com cuidado. Emblemas, símbolos, animais com significados políticos. Ela e sua dama de companhia, Mary Seton, bordaram juntas centenas de peças.

Maria, Rainha da Escócia, Painéis bordados, c. 1569-84 (RCIN 28224). Fonte: Royal Collection Trust

Muitos de seus bordados sobreviveram e estão no Hardwick Hall, no National Museum of Scotland, e em outras coleções britânicas.

“Bordar foi para Mary Queen of Scots uma forma de manter a sanidade, expressar identidade e comunicar ideias politicamente, num tempo em que suas palavras eram censuradas.” — Margaret Swain, “The Needlework of Mary Queen of Scots”
As Cartas: A Escrita como Hobby Feminino

O século XVII nos traz outro hobby feminino extraordinário: a epistolografia, que é a arte de escrever cartas.

Madame de Sévigné é talvez a maior epistológrafa da língua francesa. Ao longo de décadas, ela escreveu centenas de cartas para sua filha e essas cartas são hoje consideradas literatura de primeira grandeza.

“Minha querida filha, você está sempre em meu coração e minha pena não sabe escrever de outro modo.”
Madame de Sévigné, “Cartas”, séc. XVII (Ed. Gallimard, coletânea, trad. aproximada)

As cartas de Madame de Sévigné não eram apenas correspondência íntima. Eram crônica social, reflexão filosófica e relato histórico, tudo numa prosa de elegância extraordinária.


Nessa época, escrever cartas era uma arte cultivada pelas mulheres com o mesmo rigor que o bordado ou a música. Havia manuais de correspondência, havia papel especialmente comprado para isso (lembram dos papéis de carta?) e havia todo um ritual em torno do ato de escrever.

Séculos XVIII E XIX: O Início dos Hobbies Domésticos

Os séculos XVIII e XIX são, talvez, o período mais rico da história dos hobbies femininos no Ocidente. A expansão da classe média, o aumento do tempo disponível nas famílias mais abastadas e o desenvolvimento de materiais mais acessíveis criaram um verdadeiro florescimento dessas atividades.

Jane Austen e o Hobby como Formação de Caráter

Se você quer entender os hobbies femininos do século XIX, comece por Jane Austen. Não apenas como escritora, mas também como observadora.

Em seus romances, os hobbies de suas personagens dizem muito sobre quem elas são. Elizabeth Bennet lê. Jane Bennet borda. Mary Bennet toca piano (sem muito talento, mas com muito esforço). Emma Woodhouse pinta, toca piano e raramente termina o que começa. Para Jane Austen, o hobby era um revelador de caráter.

“Toda mulher deve ter um conhecimento de música, canto, desenho, dança e línguas modernas para merecer o nome de mulher bem educada.”
Jane Austen, “Orgulho e Preconceito” (Nota: a frase é de Mr. Bingley, Jane Austen a usa com ironia, mas ela reflete o ideal da época)
O Jardim e a Botânica como Hobby Feminino

No século XVIII, a botânica se tornou um hobby feminino muito cultivado, especialmente depois que Carl Linnaeus (o pai da taxonomia moderna) escreveu obras acessíveis ao público geral.

Mulheres de toda a Europa começaram a herborizar, o que significava colecionar, pressionar e catalogar plantas. As flores secas eram montadas em álbuns, identificadas com nomes em latim e nomes populares. Isso era ao mesmo tempo ciência, arte e hobby.

Como exemplo temos Maria Sibylla Merian, que pintou insetos e plantas com uma precisão científica extraordinária, décadas antes de que qualquer europeu tivesse feito algo semelhante na América do Sul. Ela mesma viajou ao Suriname para observar e pintar diversos insetos tropicais. Suas ilustrações estão entre as mais belas da história natural.

O Bordado Vitoriano: O Auge da Habilidade Doméstica

Com a Era Vitoriana, o bordado atingiu um nível de sofisticação e variedade que ainda nos impressiona até hoje.

O Berlin Wool Work, bordado em ponto cruz em lã sobre tela de cânhamo, seguindo padrões coloridos impressos em papel, se tornou o hobby mais popular da Europa. Revistas femininas como a The Englishwoman’s Domestic Magazine publicavam novos padrões a cada edição. A partir disso, mulheres de todas as classes sociais bordavam. A duquesa, a costureira, a professora, a fazendeira. Cada uma com os seus materiais e com o seu tempo, mas todas criando beleza com as mãos.

Englishwoman’s Domestic Magazine, 1863. Fonte: PieceWork Magazine

“Em nenhum outro período da história tantas mulheres bordaram ao mesmo tempo com tanta variedade e sofisticação quanto na Era Vitoriana.”
Rozsika Parker, “The Subversive Stitch: Embroidery and the Making of the Feminine”
A Música no Lar: O Piano como Centro da Vida Familiar

No século XIX, o piano era o centro da vida social doméstica de qualquer família de classe média. E tocar piano era uma habilidade quase universal entre as mulheres educadas.

Não era apenas um entretenimento, era o modo pelo qual a família se reunia à noite. A filha tocava, a mãe cantava, os amigos que vinham jantar apreciavam a cena e a música era o laço que unia a casa.

Clara Schumann é o nosso exemplo máximo aqui: ela foi uma pianista prodigiosamente talentosa, compositora, professora e mãe de oito filhos. Ela dizia que a música era sua respiração:

“A música é parte tão essencial de mim que não sei o que seria sem ela.”
Clara Schumann, em suas cartas no séc. XIX

O Que Toda Essa História Nos Diz Hoje?

Bom, agora voltamos ao presente e eu quero fechar essa viagem histórica com uma reflexão que me parece muito importante.

Durante milênios, as mulheres cultivaram habilidades com as mãos e com a mente não porque eram obrigadas. Mas sim porque havia nessas atividades algo que correspondia a quem elas eram. Algo que satisfazia uma vocação interior para o cuidado, para a beleza, para a ordem e para a criação. Nenhuma delas estava se limitando, mas sim se expressando.

E quando olhamos para essa história com olhos de hoje, não de julgamento, mas de admiração, percebemos algo que raramente é dito: A habilidade manual, cultivada com paciência e amor, é uma das formas mais antigas e mais nobres de inteligência humana.

Não é inferior à inteligência acadêmica e nem inferior à inteligência dos negócios. É uma forma própria, particular e bela, que durante séculos foi quase exclusivamente feminina. Mas também devemos dar muitos créditos aos homens que também fizeram, e ainda fazem, parte dessa história.

Essa tradição não morreu e ela está aqui entre nós. E é exatamente por isso que existe esse blog.

Hoje eu te deixo com essa imagem: a de uma corrente longa, tecida por mulheres ao longo de milênios, que passa pelas suas mãos agora. Quando você aprende um hobby, você não está começando algo novo. Você está retomando um fio que nunca se quebrou completamente.

Espero que você tenha gostado do artigo de hoje. Mas antes de ir, me conta: qual dessas histórias te surpreendeu mais e qual delas você não conhecia?

Eu sou a Nanda e obrigada por passar o seu tempo comigo!